domingo, 26 de março de 2017

O Dom da Simplicidade - Artigo de Alexandre Henrique





Era noitinha e a travessa Joel Fonseca estava, naquele momento, obstruída por um carro aparentemente enguiçado, conduzido por um motorista visivelmente embriagado, impedindo o acesso por aquela via ao largo da Catedral. 

Muitos motoristas, diante da cena, já haviam dado ré e procurado acessar seus destinos por outras ruas. Eis que estaciona um fusca verde e dele desce um homem franzino, vestido de forma simples, porém sóbria. 

Com a voz mansa e meio assoviada, denunciando no sotaque um pernambuquês recifense, ele se dirige ao condutor que tentava, com algum esforço, manter-se de pé. 

Ao chegar mais próximo, ofereceu-lhe ajuda. 

O motorista, com a voz lenta e pastosa, comum nessas ocasiões, não titubeou.

— Foi gasolina. Só sai empurrado.

— Pois vamos empurrar — disse o recém chegado. 

Ato contínuo, conclamou a ajuda de alguns transeuntes e, junto com mais três ou quatro, conseguiram desobstruir a travessa Joel Fonseca, empurrando o carro, como sugeriu o bêbado, até a pracinha da Catedral. 

Feito isso, ainda ofegante, o homem do fusca verde aconselha o ébrio a fechar o carro e oferece-lhe carona para deixá-lo em casa.

Apesar de uma certa insistência, o bêbado não arredou pé de perto do veículo que conduzia. Apenas agradeceu enfastiado.

—Fique com Deus então! — disse o homem.

—Vá com Ele! — disse o bêbado.

Manú, que da porta lateral do bar Balãozinho acompanhara toda a cena e também ajudara a empurrar o carro, no outro dia, esperou o freguês chegar para tomar a “primeira”, serviu-lhe a cerveja de praxe e, com a crueldade que só algumas esposas e donos de bares possuem, colocou mais um pesado fardo sobre a ressaca moral do cliente.

— Bonito prá sua cara! Fazendo o Bispo empurrar seu carro ontem à noite!

O bêbado era Paulinho de Manoel Muriçoca. O bispo, Dom Marcelo Pinto Carvalheira. 

Paulinho, como a mais comezinha das lógicas já indicava, partiu mais cedo, ainda muito jovem, vítima de um acidente de carro. 

Anos depois um outro acidente, desses que acontecem inicialmente de forma quase invisível e silenciosa, tirou de Dom Marcelo a capacidade de raciocínio, julgamento e memória. 
Foi acometido do mal de Alzheimer, doença apelidada por alguns de “o alemão”. Um mal que mata deixando vivo. Uma verdadeira crueldade para com os bem aquinhoados do dom da inteligência, como no caso do Dom da Simplicidade.

Quem teve a graça de conhecer Dom Marcelo, na plenitude da sua consciência, e de privar do seu convívio mesmo que por pouco tempo, decerto pôde ver e sentir a sua aura de respeitabilidade, fé sincera e franciscana simplicidade. 
Místico, culto e de uma dimensão humana reservada a poucos, Dom Marcelo acabava por arranhar, muitas vezes, as convicções dos mais persistentes no ideário de ser a vida apenas um breve lampejo entre duas trevas infinitas, sem antes nem depois. Nesses casos, resumia:

— O reino de Deus é de todos, mesmo daqueles arredios aos mistérios da Eucaristia, porém, discretos, conseguem ter mais gestos cristãos do que tantos outros, assíduos dos templos, mas vazios de compaixão para com o semelhante.
Nunca prometeu o céu a ninguém, tampouco ameaçou com o fogo do inferno, mas trazia na mente, no coração e nos gestos, o desejo de ver o homem resgatado em sua dignidade no plano terreno, sem ser humilhado, sem ser escravo de ninguém. Insistia em ver o tal homem com acesso a bens sociais como educação e saúde, com direito a moradia e trabalho dignos. 

Se vivesse no campo, um pouco de terra para trabalhar sem ser “alugado" de ninguém. Mesmo na hipótese de trabalhar para alguém, ajudava na luta para que recebesse a justa paga por uma jornada humanamente razoável e minimamente segura. 

Por certo entendia ser o homem muito mais suscetível ao pecado vivendo miseravelmente na terra, sem poder usufruir das dádivas da natureza, comuns a todos, como o sol e a chuva, propriedades de ninguém. 

O seu episcopado foi marcado pela Coragem no enfrentamento de desigualdades seculares. Sua passagem pela nossa aldeia deixou marcas que o tempo dificilmente apagará.

Nos dias mais difíceis desses enfrentamentos, lançou-se de forma tenaz na defesa de dois dos seus auxiliares mais próximos. 

O padre Luiz Pescarmona e o advogado João Camilo Pereira.

Uma carta precatória, supostamente expedida pelo juízo de direito de uma comarca do interior do Pará, recebida para cumprimento pelo magistrado do Morgado de Costa Beiriz, determinava a prisão e a condução, também por supostos agentes da polícia daquele Estado, do padre Luís e do advogado Camilo. Deveriam levá-los até uma remota comarca no norte do País. 

Um ardil para, certamente, eliminá-los no caminho. Coisas de alguns senhores de engenho e usineiros da época, incomodados com as ações da Pastoral da Terra. 

Abortado pelo juiz Antônio Florentino, o plano criminoso serviu para revelar, mais uma vez, a dentuça da fera que por muito tempo habitou e, vez por outra, reaparece nos canaviais e pastos do Brejo, do Curimataú e de tantos outros ermos rurais, atestando, como nos versos da canção popular, que “ …só quem tentou sabe como dói, vencer Satã só com orações…” 

Do altar da Catedral, com a voz, o gestual e a entonação que fazia dele um gigante, Dom Marcelo denunciou:

— Seguir os passos trilhados por Jesus, não é fácil. Nem naqueles dias longínquos da crucificação, nem hoje, quando celebramos a ressurreição, o Cristo vivo entre nós! (era domingo de Páscoa). Um exemplo disso é o que tentaram contra o padre Luiz e o Advogado Camilo. Quiseram atingi-los, possivelmente para ceifar-lhes o bem maior, a vida, através de uma carta precatória! 

Batendo com força a mão sobre altar e no mais alto tom alcançado pela sua voz, bradou.

— P r e c a t ó r i a  i g n o m í n i a ! 

O quase padre à época e hoje jornalista Eraldo Luis, que ouvia a missa através da Rádio Cultura, em Gravatá de Camarasal, acompanhado do hoje padre Jandeilson, testemunhou a reação de uma velhinha que, como os dois primeiros, também ouvia a missa através do rádio.

— Vixe Nossa Senhora ! Sangue de Cristo! Tentaram matar o Padre Luiz e o advogado Camilo com uma arma chamada “picatora guinomina”.

Com a sua voz eloquente alinhava o discurso, a gestos e praticas. 

Com a maior parte de uma doação que recebeu para reformar a casa episcopal, fundou a rua da Santa, construindo várias casas para carentes sem teto no Bairro do Nordeste. 

Quando o Grande Júri da França o escolheu como personnalité du monde, poderia levar um pequeno séquito a Paris, mas recusou a oferta e preferiu receber a honraria aqui mesmo no Morgado, perto de sua gente. 

Quando recebeu uma cusparada no rosto de um rebelado no presídio regional, tirou a camisa que vestia e deu para que o presidiário se agasalhasse na madrugada chuvosa e fria. Na mesma noite, em um telefonema, pediu para que acordassem o governador de então para tratar de uma questão que classificou como sendo de “vida ou morte”. Depois do contato com o governador, o diretor da casa penal foi exonerado e ele voltou ainda insone para dar a notícia aos presos. 

Assim era Dom Marcelo. Viveu verdadeiramente para e com os pobres e desvalidos e não deles. Lutou para dar-lhes uma melhor qualidade de vida na terra e, somente depois, os deixar a mercê do livre arbítrio, com uma melhor capacidade de fazer suas escolhas, um pouco mais em pé de igualdade, saciados da fome de comida e principalmente da sede de justiça. 

Para isso criou, enquanto Bispo, um bem articulado núcleo de defesa dos direitos humanos e um serviço de educação popular, dentre vários outros organismos ligados à Diocese, com os mesmos fundamentos que balizaram a sua ação pastoral. Tais organismos eram, muitas vezes, mantidos através de doações de cristãos da Europa, onde o seu nome e o seu trabalho até hoje repercutem.

Da mesma forma que ajudou a empurrar, com paciência e solidariedade o carro que impedia o acesso ao largo da Catedral, removeu obstáculos históricos seculares, fazendo uma Igreja mais próxima dos homens na terra, mais compreensiva das carências do povo de Deus diante das vicissitudes. 

Lamentável um homem falar tão bem e escrever em tantos idiomas, tão inteligente, ter perdido a compreensão e a memória. Foi o que disse um amigo comum à premiada autora Maria Valéria Rezende.

Com inteligência e perspicácia, somadas a autoridade de quem trabalhou, conviveu e conheceu muito de perto o Bispo, ela não se conteve:

— Ele agora fala direto com Deus. Dialoga com o transcendente, sem ruídos.

Se por um milagre o Dom da Simplicidade fosse religado à realidade, não tenho a menor dúvida que emprestaria o que lhe restasse de existência à mesma luta de sempre, contra as desigualdades e por um mundo mais justo, com o mesmo vigor e tenacidade de antes.

Como no mitológico castigo de Sísifo, analogia recorrente quando se tenta demonstrar os retrocessos que vivenciamos nos dias atuais enquanto sociedade, o Dom da Simplicidade, certamente, ajudaria a empurrar de volta a imensa pedra que rolou do topo da montanha, esmagando nossos sonhos, e a moveria, ladeira acima, com paciência e sabedoria, colocando-a em seu lugar, quantas vezes fosse necessário.

Um feliz 2017 para todos. Deixo 2016 para os livros de história. Sobre os acontecimentos políticos do ano que passou, se um dia for acometido do mal de Alzheimer, é a primeira coisa que desejo esquecer.


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