terça-feira, 7 de abril de 2026

CANSADA? AH!, LOGO VOCÊ?... (Crônica)




             Havia meses que não nos encontrávamos... Naquele sábado à tarde tínhamos combinado de tomarmos um lanche na padaria, e conversarmos um pouco, colocar os assuntos "em dia"...

             Celione, pela primeira vez chegou pontualmente. Não era comum. Geralmente se justificava colocando a culpa nas exigências do marido, já que para cuidar dos filhos tinha as babás.

              Havia algo estranho em sua fisionomia; aparentemente estava bem diferente: cheia de olheiras, abatida e visivelmente com autoestima muito baixa, apresentando literalmente sinais de esgotamento físico e mental. Após nos cumprimentarmos, nosso papo nem chegou a fluir como antes. Percebi que ela estava ansiosa para desabafar. Ali, em silêncio, deixei que falasse enquanto me permiti ser a "escuta confiável" que minha amiga parecia não encontrar em outra pessoa.

              "Alfredo sempre exigiu bastante de mim, desde que nos casamos. Nosso namoro durou um período muito curto, apenas seis meses. Apesar de eu e minha família o conhecermos, por se tratar de família tradicional residente há anos na cidade, hoje sei que só isso não é suficiente para sabermos quem de fato é uma pessoa. No início do segundo semestre de 2005 oficializamos nosso casamento. Afinal ele tinha pressa (em legitimar uma segunda união) devido os investimentos e bens que possuía. Estava correndo o risco de perder uma parte significativa para a ex-companheira. A cidade inteira sabia que ela havia "fraudado" vários documentos (quando ainda estava com ele) e conseguido testemunhas falsas para comprovar que realmente tinha mais direitos de que aqueles que ele, amigavelmente,  já havia lhe concedido".

               "Querida, estou muito cansada de não me cansar"! Levantei a cabeça, abri mais os olhos e olhei-a fixamente.

              Ela percebeu minha reação e continuou: "É isso mesmo que você ouviu"! Simplesmente estou esgotada física e mentalmente"... Confesso que nunca ouvi antes minha amiga falar tão sério; seu tom de voz havia mudado completamente. Senti em seu olhar algo a mais: um misto de confusão e pedido de socorro.

             Nos conhecemos desde a infância; sempre fomos grandes amigas. É fato que depois que crescemos, principalmente após a adolescência, vamos assumindo responsabilidades, entre essas algumas que exigem cada vez mais de nós: estudos, trabalho, pais, casamento, filhos, tudo isso vai nos afastando não só de nossas amizades, mas de nós mesmas, porque vai nos sobrecarregando de tal forma que, se não pararmos para nos observar, chegaremos ao extremo de nossas forças e, talvez estejamos doentes, pelo fato de termos que cuidar durante anos e anos a fio, de tantas pessoas a nossa volta, vamos nos  procrastinando, deixando para depois um depois que nunca saberemos quando irá chegar para ser a nossa vez.

              Celione é mãe de três filhos, ainda menores de idade. Ela levou anos tentando engravidar. Era um sonho quase "desesperado" do casal. Alfredo gastou rios de dinheiro com tratamentos modernos nas melhores Clínicas do Estado e de outra Região do país. Quando ela engravidou, as famílias fizeram uma grande festa para celebrar entre familiares e amigos. E, após o nascimento dos trigêmeos, a festa durou três dias... Alfredo tão empolgado, narcisista, cheio de si, chegou a cogitar que seus filhos recém nascidos mereciam ganhar um dia de "ponto facultativo" na cidade, para que mais  e mais pessoas viessem visitá-los.

             Ele possui grandes investimentos em dois Estados vizinhos, por esse motivo passa a maior parte do tempo viajando. A cada 15 dias Alfredo visita a família, permanecendo juntos apenas o final de semana, ainda assim sai para visitar os pais e alguns amigos mais próximos. A esposa e as crianças sentem bastante sua ausência, principalmente as crianças que, apesar de já estarem em idade escolar, sempre perguntam pelo pai e pedem para telefonar, quase sempre pedindo (às vezes chorando) para que ele volte para casa definitivamente. Essas cenas partem o coração da mãe, principalmente porque já ocorreu de ele não atender a ligação, ou atender demonstrando irritação, impaciência, inclusive pressa, causando uma má impressão nos filhos. Atualmente ela tem conhecimento de que, por mais que se desdobre em atenção, carinho e cuidados, nunca irá preencher a presença paterna. Alfredo sempre foi um homem "linha dura", seco, por vezes frio e sem diálogo com a família. Celione, quando tenta conversar, ele, na grande maioria das vezes reage com grosserias, sem se importar de deixá-la triste e falando sozinha.

             Minha amiga tem tudo (materialmente falando) para não precisar trabalhar fora, ainda assim trabalha. De segunda a quinta-feira dá plantão no maior Hospital da Cidade, em turnos de revezamento. O fato de ser mãe de três meninos com a mesma idade, é o suficiente para acumular não apenas tarefas em casa (algumas pertinentes apenas a ela), mas deixar a desejar na supervisão dos trabalhos de suas "secretárias" no trato com a casa e as crianças. 

             Alfredo jamais impediu que a esposa trabalhasse. Por se tratar de um homem que detém sozinho o controle das finanças, Celione optou por trabalhar, para não ter que depender dele (financeiramente) no momento de comprar roupas, calçados ou ir no salão de beleza.

             A parte mais difícil não está apenas relacionada aos filhos e à casa, mas às importunações do marido com suas exigências, por vezes descabidas. Ele sequer entende quando a esposa está cansada, esgotada, e tudo que deseja é descansar, relaxar e dormir um pouco mais. É tanta incompreensão que Alfredo já teve a cara de pau, mais de uma vez, de cogitar arranjar outra mulher, que mesmo trabalhando fora, estivesse mais "disponível" quando ele precisar.

              No final de nosso reencontro, minha amiga falou com a voz embargada: "Eu não sou mais aquela, sequer sou o que ainda tento parecer". Naquele instante notei algumas lágrimas rolando em seu rosto, e isso me devastou por dentro. A vontade de ajudá-la é mais forte que qualquer outra coisa nesse momento. No dia seguinte refleti bastante sobre como os esposos/companheiros, as famílias, a sociedade querem uma mulher sorridente, gentil, disposta, simpática e atenciosa o tempo todo, esquecendo-se de que somos tão somente humanas.

             Nos despedimos com um grande e demorado abraço, e minhas palavras de encorajamento na certeza de que ela pode contar comigo sempre que precisar. Paguei a despesa e retornei para casa pensando em inúmeras outras: 

Celiones, Lauras, Marias, Anas, Judites, Valérias, Antonias, Germanas, Marcelas etc, etc, etc..., que carregam sobre os ombros o peso das jornadas duplas  ou triplas de trabalho mais o peso enorme da incompreensão e das grosserias de seus companheiros. Elas seguem vida afora sentindo na pele a mesma sensação de estarem "cansadas de não se cansar".

Aparecida Ramos

Imagem gratuita: Pixabay

Tribunal dos EUA autoriza rastreio de bens do Banco Master no exterior

 

Juiz negou parcialmente o pedido da defesa de Daniel Vorcaro



                               Daniel Vorcaro, dono do Banco Master  • Reprodução

A Justiça dos Estados Unidos liberou, na última segunda-feira (6), o rastreamento de bens do Banco Master fora do Brasil. O juiz Scott M. Grossman do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida negou parcialmente um pedido feito pela defesa do ex-dono do instituto, Daniel Vorcaro, e manteve a autorização para que o liquidante continue levantando informações sobre ativos possivelmente vinculados ao patrimônio em liquidação.

Foram mais de 28 intimações expedidas a galerias de arte, lojas de luxo e outras empresas que tiveram relações comerciais com Vorcaro.

Segundo a decisão, a legislação brasileira permite que bens de administradores, controladores e pessoas ligadas à instituição permaneçam indisponíveis durante a apuração de responsabilidades, o que é compatível com o regime disponível no Capítulo 15 da lei de falências norte-americana, que busca proteger credores e evitar ocultação ou transferência de patrimônio para outros países.

Grossman ressaltou que a "Rule 2004" da Justiça americana autoriza investigações amplas em processos de insolvência, inclusive com caráter exploratório, para identificar ativos e possíveis irregularidades. O juiz destacou que esse tipo de apuração pode alcançar informações sobre transações financeiras, patrimônio e relações comerciais ligadas aos devedores.

Ao analisar os argumentos da defesa, o magistrado concluiu que Vorcaro não conseguiu demonstrar de forma suficiente a existência de violação concreta de privacidade.

"O Sr. Vorcaro alega que a análise violaria direitos de privacidade protegidos. Quando pressionado na audiência, no entanto, sobre quais direitos de privacidade específicos ele estava alegando, seu advogado identificou apenas direitos gerais de privacidade sob a Constituição da Flórida – sem explicar como esses direitos seriam devidamente invocados pelo Sr. Vorcaro e fez referência às leis de sigilo bancário do Brasil, novamente sem estabelecer sua aplicabilidade neste contexto", afirmou o juiz.

Limites impostos pela corte

Embora tenha mantido a investigação, o tribunal estabeleceu limites pontuais. A corte restringiu quatro intimações relacionadas a uma disputa específica sobre um imóvel em Florida, registrado em nome da Sozo Real Estate. Como já existe uma ação judicial própria sobre esse imóvel, o juiz determinou que a produção de provas siga as regras processuais desse processo específico, e não a "Rule 2004".

Também foi anulada uma intimação contra o Bank of New York Mellon, porque ela ultrapassava os limites geográficos previstos pela legislação americana, que restringe a entrega de documentos a um raio máximo de 100 milhas (cerca de 160 quilômetros).

No restante, o tribunal manteve válidas as outras 24 intimações expedidas pelo liquidante, permitindo a continuidade das investigações patrimoniais nos Estados Unidos. 

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/tribunal-dos-eua-autoriza-rastreio-de-bens-do-banco-master-no-exterior/

Trump afirma que 'uma civilização inteira morrerá esta noite' se o Irã não fechar acordo com EUA

 

                                         Trump voltou a fazer ameaças ao Irã nesta terça-feira
    • Author,Anthony Zurcher
    • Role,Da BBC News nos EUA
    • 7 abril 2026, 04:57 -

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta terça-feira (7/4) que "uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada".

Trump havia dado um prazo até às 20h desta terça pelo horário de Washington (21h de Brasília) para que o governo do Irã firmasse um acordo que permita a navegação pelo estreito de Ormuz. Depois disso, segundo o presidente americano, em apenas quatro horas, todas as pontes e usinas de energia do país serão "dizimadas".

Nesta terça, Trump publicou uma nova mensagem na sua rede Truth Social: "Eu não quero que isso [a destruição de uma civilização inteira] aconteça, mas provavelmente acontecerá. No entanto, agora que temos uma Mudança de Regime Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE?

"Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!"

Também nesta terça, um oficial americano disse à rede americana CBS News que as forças dos EUA realizaram ataques contra alvos militares na ilha iraniana de Kharg. Os EUA já haviam atacado a ilha em março, com o presidente Trump afirmando que os alvos militares foram "totalmente destruídos". Segundo o oficial, que preferiu não se identificar, a infraestrutura petrolífera não foi alvo do ataque, que teria acontecido na noite passada.

Nas últimas semanas, Trump estabeleceu prazos, fez exigências e lançou ameaças em meio à guerra conjunta de EUA e Israel contra o Irã. Mas raramente elas foram tão explícitas quanto agora.

Em uma entrevista coletiva na segunda-feira, Trump disse a repórteres que pode eliminar o Irã "em uma noite" caso o país não chegue a um acordo antes do prazo estipulado por ele. O presidente americano afirmou acreditar que líderes "razoáveis" do Irã estavam negociando de "boa fé", mas que o resultado permanece incerto.

Segundo o presidente, o Irã precisa firmar um acordo "que seja aceitável para mim". Um dos componentes do acordo deve incluir "tráfego livre de petróleo" pelo estreito de Ormuz.

Fim do Mais lidas

Duas mulheres vestidas de preto dos pés à cabeça caminham diante de prédios destruídos e uma série de bandeiras vermelhas com inscrições em persa em amarelo.

Crédito,Getty Images

À medida que as horas finais se aproximam, há poucos sinais de que o Irã esteja pronto para ceder ao ultimato de Trump.

Os líderes iranianos rejeitaram um cessar-fogo temporário e divulgaram sua própria lista de exigências, que um oficial do governo americano descreveu como "maximalista" (o que pode ser interpretado como ambiciosas demais ou irrealistas).

Isso coloca o presidente americano em uma posição delicada. Se não houver acordo, Trump pode estender seu prazo — pela quarta vez nas últimas três semanas. Mas recuar após emitir ameaças tão detalhadas, pontuadas por palavrões e alertas severos, pode prejudicar sua credibilidade enquanto a guerra se arrasta.

É possível que o Irã, e o restante do mundo, concluam que, apesar do poder militar e da habilidade tática dos EUA — demonstrados com clareza na operação realizada no fim de semana para resgatar dois pilotos abatidos dentro do território iraniano — o país não está negociando a partir de uma posição clara de força.

"Vencemos", insistiu Trump durante sua coletiva de imprensa na segunda-feira à tarde.

"Eles estão militarmente derrotados. A única coisa que têm é a psicologia de: 'Ah, vamos colocar algumas minas na água'."

Essa "psicologia" — a capacidade de impedir que petroleiros atravessem o estreito de Ormuz com drones, mísseis e minas — pode ser um trunfo iraniano mais poderoso do que os EUA têm estado dispostos a reconhecer.

Durante a coletiva de segunda-feira, Trump exaltou a precisão militar americana demonstrada no bombardeio "Midnight Hammer" do ano passado contra instalações nucleares do Irã, na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro e na missão de resgate do fim de semana.

O presidente americano e sua equipe de segurança nacional celebraram esse esforço mais recente — que envolveu a coordenação de centenas de aeronaves e militares de elite, além do uso de despistagens e recursos tecnológicos avançados.

Mas o objetivo desse esforço, embora impressionante, foi evitar o que o secretário de Defesa Pete Hegseth reconheceu ser uma possível "tragédia em potencial".

Mesmo que a tragédia tenha sido evitada, o resgate triunfante ressaltou os riscos que as forças americanas ainda enfrentam no Irã. E o presidente pode estar aprendendo que o poder militar dos EUA tem seus limites.

"Podemos bombardeá-los sem piedade", disse ele. "Podemos deixá-los desnorteados. Mas, para fechar o estreito, basta um terrorista."

A outra opção é Trump cumprir suas ameaças. Em várias ocasiões na segunda-feira, ele afirmou que esse era um caminho que não desejava seguir.

Embora Trump tenha dito que o povo iraniano estaria disposto a suportar a campanha militar americana — e acolheria as bombas caindo sobre suas cidades — ele também reconheceu que tudo o que os EUA destruírem agora teria de ser reconstruído, e que o país poderia eventualmente contribuir com esse esforço.

"Eu quero destruir a infraestrutura deles? Não", afirmou. "Neste momento, se formos embora hoje, levará 20 anos para eles reconstruírem seu país."

Ele acrescentou que, se seguisse adiante com suas ameaças de bombardeio, o esforço de reconstrução levaria um século.

Não é exatamente a "idade da pedra" à qual ele advertira que o Irã seria reduzido, mas a crise humanitária resultante — incluindo o impacto regional da retaliação "arrasadora" que o Irã prometeu — poderia ser devastadora.

Mesmo com a proximidade do prazo de seu ultimato, Trump ainda espera um avanço.

"Temos um participante ativo e disposto do outro lado", disse. "Eles gostariam de poder fechar um acordo. Não posso dizer mais do que isso."

Com os riscos tão elevados como estão, a falta de transparência do presidente é notável. Ele tem um plano — "cada detalhe foi pensado por todos nós", disse na segunda-feira —, mas não o divulga.

Isso pode indicar que, nos bastidores, as negociações estão mais avançadas do que foi reconhecido publicamente. Ou pode ser uma combinação de blefe e otimismo exagerado.

"Eles têm até amanhã", disse Trump. "Vamos ver o que acontece. Acredito que estejam negociando de boa-fé. Acho que vamos descobrir."

A central de golpes em país asiático que se passava por delegacia brasileira para achacar vítimas

 

Réplica de uma delegacia da Polícia Federal brasileira, com bandeiras do Brasil e o emblema da PF na parede
    • Author,Jonathan Head
    • Role,Correspondente no sudeste asiático
    • Author,Lulu Luo
    • Author,Thanyarat Doksone
    • Reporting from,O Smach, Cambodia

Ao percorrer os corredores escuros de um prédio de seis andares atrás do cassino Royal Hill, no Camboja, cada porta se abre para um mundo diferente.

Em uma delas, há uma réplica perfeita de um banco vietnamita. Em outra, você está em uma delegacia da Polícia Federal brasileira, com bandeiras do Brasil e o emblema da PF na parede. Havia outra sala com uma réplica de uma delegacia da polícia federal australiana. Em um canto dali, há uma camisa de um policial chinês pendurada.

Mensagens motivacionais foram pintadas nas paredes. "Dinheiro vindo de todos os lados", dizem os caracteres chineses em uma placa. Há diversas notas falsas de 100 dólares espalhadas pelo chão. Há também um mural com tabelas e orientações em português, entre elas "Qualidade é melhor do que quantidade".

O cassino Royal Hill era um enorme complexo de golpes localizado em uma cidade chamada O Smach, perto da fronteira com a Tailândia.

Milhares de pessoas de diferentes países trabalhavam ali, sob um regime severo que controlava rigorosamente suas vidas, fraudando milhares de pessoas ao redor do mundo pela internet e roubando suas economias.

Em dezembro passado, o Royal Hill foi bombardeado pela força aérea da Tailândia durante um breve conflito de fronteira entre os dois países. Tailandeses alegam que drones cambojanos estavam sendo lançados do cassino.

Os trabalhadores do local fugiram, deixando para trás tigelas de macarrão intocadas, latas de refrigerante pela metade e um cheiro forte.

Hoje, o cassino Royal Hill está vazio, com exceção dos soldados tailandeses que o ocupam. As janelas foram estilhaçadas pelo bombardeio e, em alguns lugares, buracos enormes foram abertos nas paredes e no teto, cobrindo tudo com poeira.

Militares da Tailândia levaram a BBC até o local porque, segundo eles, queriam que o mundo tivesse uma ideia da dimensão da indústria de golpes no Camboja — e, assim, justificar os ataques aéreos contra alvos no Camboja em dezembro passado. Eles diziam precisar de ajuda internacional para encerrar a prática.

O governo cambojano protestou contra a ocupação tailandesa de seu território. Mas os tailandeses argumentam que, durante o cessar-fogo, ambos os lados concordaram em manter suas forças militares onde estavam quando o cessar-fogo foi firmado entre os dois países.

Algo impressionante em Royal Hill não é apenas o tamanho, mas também o fato de praticamente nada se sabia sobre o local até os tailandeses assumirem o controle.

O cassino O Smach, um complexo do outro lado da rua, havia aparecido em reportagens jornalísticas sobre trabalhadores que fugiram dali denunciando abusos.

Ly Yong Phat, dono do cassino, é um dos magnatas mais famosos do Camboja e é conhecido por suas relações próximas ao clã Hun, liderado pelo ex-primeiro-ministro Hun Sen. Ly Yong Phat já sofreu sanções dos Estados Unidos e de outros países sob acusação de tráfico humano e fraude online.

Lim Heng, dono do Royal Hill, tem um perfil bem mais discreto. Ele nunca figurou em listas de sanções internacionais, ainda que ele, assim como Ly Yong Phat, tenha sido agraciado com o prestigioso título de Neak Oknha por Hun Sen. Para obter esse título, Lim Heng fez uma doação obrigatória do equivalente a quase R$ 2 milhões, se tornando parte da elite cambojana com outras poucas centenas de pessoas.

Uma das únicas coisas que se sabe sobre Lim Heng é o seu hábito de prestar respeito ao local de cremação do líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, que fica próximo a outros de seus cassinos na fronteira com a Tailândia ao norte. O Khmer Vermelho instituiu um regime comunista brutal no país entre 1975 e 1979, e estima-se que 2 milhões de pessoas foram mortas no período.

Um enorme complexo de golpes, dentro do Camboja, em uma cidade de fronteira chamada O Smach

Crédito,Lulu Luo/BBC

Legenda da foto,Uma vista dos complexos de golpes em O Smach

Grande parte dos magnatas do Camboja enriqueceu adquirindo terras logo depois do fim da guerra civil cambojana em 1991 por meio de laços com a família que comandava o país.

Inicialmente, eles fizeram dinheiro com desmatamento e plantações ilegais. Depois, se beneficiaram da especulação imobiliária nas cidades amplificada por investidores chineses.

Em regiões fronteiriças como O Smach, cassinos eram os negócios mais lucrativos, tomando vantagem das proibições a apostas em países vizinhos como a China e a Tailândia. O governo do Camboja emitiu cerca de 200 licenças para cassinos nas últimas três décadas.

Essa expansão do jogo atraiu organizações criminosas da China, que também atuavam no lucrativo segmento de apostas online a partir dos cassinos. Mas em 2019, após pressão da China, Hun Sen baniu a aposta online. Em seguida, houve o impacto da pandemia de covid-19, que levou à suspensões das viagens internacionais naquela região.

As organizações criminosas então migraram das apostas online para os golpes, ludibriando jovens trabalhadores de outros países com atraentes ofertas de trabalho.

Alguns sabiam que atuariam em fraudes e golpes. Outros acreditavam que fariam trabalhos ligados a dados ou a programação de computadores. Poucos tinham ideia do quão duras seriam as condições de trabalho.

No Royal Hill, a BBC viu documentos em chinês sob os escombros detalhando as punições aos trabalhadores que não atingissem as metas. Falhar em obter um "lead" (no caso, começar a construir uma relação online com uma vítima) até o fim do dia resultava em cinco chibatadas.

Um trabalhador que falhava em obter qualquer "lead" ao longo de três dias recebia pelo menos 10 açoitadas. Jogar conversa fora com colegas de trabalho, ou falhar em compartilhar informações íntimas como fotos para estabelecer confiança com a vítima, resultava em punição semelhante.

O Royal Hill foi fortemente bombardeado pelo Exército tailandês em dezembro

Crédito,Jonathan Head/ BBC

Legenda da foto,O Royal Hill foi fortemente bombardeado pelo Exército tailandês em dezembro

"Algumas pessoas foram eletrocutadas. Outras foram colocadas na chamada Sala Escura, onde ocorriam torturas terríveis", afirmou Wilson, um jovem de Uganda que foi recrutado para trabalhar no Royal Hill em agosto passado.

Ele afirmou ter sido informado de que faria um trabalho de marketing digital na Malásia.

A BBC conversou com Wilson em Phnom Penh, capital do Camboja, onde ele foi abrigado por uma organização não governamental enquanto tenta achar uma maneira de voltar para Uganda.

Wilson descreveu à BBC ter sido forçado a trabalhar 15, 16 horas por dia, seguindo roteiros elaborados por seus chefes chineses, usando inteligência artificial (IA) para transformar suas vozes e aparências.

"Você deve interpretar o papel de uma mulher rica de 37 anos que busca um marido. Você deve conversar com esses americanos mais velhos com a intenção de fazê-los pensar que você se apaixonou por eles. Então, no roteiro, há um ponto em que você os destrói emocionalmente. Você constrói confiança e depois você os convence a comprar os produtos."

Wilson relatou à BBC que foi obrigado a continuar trabalhando mesmo durante os bombardeios feitos pela Tailândia. "Toda vez que ouvíamos uma bomba corríamos para fora. O prédio às vezes tremia. Mas depois tínhamos que voltar e trabalhar novamente."

A BBC viu documentos descrevendo cenários de golpes semelhantes, em vários idiomas, para ganhar a confiança das vítimas e tranquilizá-las sobre possíveis "investimentos". Havia também regras para todos os funcionários e diversas multas por atraso.

Os trabalhadores precisavam de permissão para ir ao banheiro. Além disso, a BBC viu uma folha de papel com o título "Formulário de Registro de Saída do Funcionário", que registrava cada ida ao banheiro feita por cada trabalhador, inclusive registrando quanto tempo eles passavam no banheiro.

"Formulário de Registro de Saída de Funcionários" no Royal Hill

Crédito,Lulu Luo/BBC

Legenda da foto,Um "Formulário de Registro de Saída de Funcionários" no Royal Hill

Além disso, existem os golpes propriamente ditos. Ao lado de uma réplica de uma delegacia brasileira, foram construídas fileiras de cabines revestidas com espuma à prova de som. Havia, sobre as mesas, diversas anotações manuscritas em português com dicas que deveriam ser usadas pelos golpistas para enganar as vítimas.

Havia uma intimação falsa, porém relativamente convincente, da polícia federal do Brasil que aparentemente acusava uma pessoa de lavagem de dinheiro. Esse tipo de prática fraudulenta costuma ser usada para intimidar possíveis vítimas de golpe para que repassassem dinheiro ou informações bancárias.

O governo do Camboja ignorou ao longo dos anos a preocupação e a pressão crescentes de outros países em relação à indústria de golpes e os crimes associados a ela no país.

Um relatório divulgado em 2025 pelo Departamento de Estado americano sobre tráfico humano, por exemplo, acusou o governo do Camboja de não ter feito esforços significativos para eliminar essa indústria de golpes, nunca prendendo ou processando criminalmente suspeitos de operar um local usado para esses crimes.

Quando os Estados Unidos aplicaram sanções contra o magnata Ly Yong Phat em setembro de 2024 por causa de suas ligações com fraudes e trabalhos forçados, o Partido Popular do Camboja, no qual o magnata é uma figura importante, exigiu a retirada das sanções americanas sob o argumento de que os EUA estavam violando a soberania cambojana.

Fileiras de cabines revestidas com espuma acústica

Crédito,Jonathan Head/BBC

Legenda da foto,As cabines de onde os golpistas ligavam para suas vítimas

Mas neste ano o governo mudou, de forma repentina, a sua estratégia, depois de sofrer pressão intensa dos EUA, da China e de outros países para agir contra as fraudes.

Equipes da polícia fizeram operações contra dezenas de instalações suspeitas de serem usadas para fraudes. Além disso, o primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, anunciou que a indústria de fraudes seria completamente fechada até o fim de abril, argumentando que ela estava destruindo a reputação e a economia do Camboja.

A ação mais dramática nessa direção foi a prisão e extradição para a China em janeiro deste ano de Chen Zhi, um jovem empreendedor de origem chinesa que havia sido sancionado em 2025 pelos EUA e pelo Reino Unido e era acusado de operar uma ampla rede de empresas bancadas por fraudes.

Chen Zhi havia comprado a cidadania cambojana e se tornado uma das mais influentes figuras do país, sendo conselheiro pessoal de Hun Sen, ex-primeiro-ministro. Seu Prince Group incluía um banco, uma companhia aérea e diversos empreendimentos no mercado imobiliário.

Por anos, ele parecia intocável. Mas acabou sendo preso. Um vídeo foi divulgado no qual ele aparece encapuzado e algemado, sendo arrastado para fora do avião que o levou para a China, onde ele agora aguarda julgamento sob acusação de operar um esquema de jogos de azar e fraude internacional.

O tratamento humilhante registrado no vídeo divulgado foi visto como um sinal de que figuras do alto escalão da indústria de fraudes poderiam ser sacrificadas a fim de tentar salvar a reputação do Camboja.

O grande passo seguinte foi a recente extradição de Li Xiong, presidente da Huione Pay, um sistema de pagamento online acusado de lavar dinheiro proveniente de esquemas fraudulentos.

Uma foto antiga de Chen Zhi

Crédito,Prince Holding Group

Legenda da foto,Chen Zhi foi preso e extraditado para a China em janeiro

Muitas das instalações usadas para fraudes agora estão vazias. A polícia afirma que mais de 10 mil trabalhadores estrangeiros foram repatriados. Outros, como Wilson, ainda estão tentando achar uma maneira de voltar para o país de origem.

Há, entretanto, muitas razões para desconfiar da declaração do governo de que isso marca o fim das fraudes no Camboja.

Operações em instalações usadas para fraudes costumam ser vistas como enxugar gelo. É bem fácil para os trabalhadores mudarem para instalações menores e mais discretas. Além disso, acredita-se que milhares desses trabalhadores tenham decidido ficar no país.

E, tirando Chen Zhi, nenhum dos magnatas acusados de ligação com essas instalações por trás de cassinos foi atingido pelas investigações. Ly Yong Phat, Try Pheap e Kok An são figuras ricas e poderosas que sofreram sanções internacionais, mas continuam vivendo confortavelmente no Camboja.

Ironicamente, Ly Young Phat e Kok An participam como senadores da votação da nova legislação, que, segundo o governo do Camboja, punirá duramente aqueles ligados às fraudes.

Já o nome de Lim Heng, chefão que construiu o Royal Hill, nunca havia figurado em nenhuma das reportagens e investigações sobre o esquema fraudulento, até o Exército tailandês cruzar a fronteira e apreender seu cassino.


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