terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Em aniversário de UPPs, bolo, bexigas e secretário confiando em 'sacerdócio' da PM para lidar com crise


Moradores participam de festa na UPP Santa Marta
Image captionMães levaram crianças para celebração em UPP

Uma bandeira branca com "paz" escrito em letras azuis garrafais recebia quem chegava à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do morro Santa Marta, na zona sul do Rio. Enquanto policiais passavam carregando seus fuzis a tiracolo, mães entravam e saíam carregando suas crianças.
Elas aguardavam, na manhã de segunda-feira, a chegada do "Papai Noel da UPP", uma das principais atrações da festa para comemorar os oito anos desde a implantação do programa de segurança pública ali.
Policiais militares do Rio estão há meses sofrendo as consequências da crise financeira do Estado do Rio, sem receber pagamentos adicionais por trabalho fora da escala e enfrentando até falta de combustível para fazer patrulhamentos de rotina.
Mas os que participavam da festa receberam um agradecimento especial do secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá.
Para atravessar a crise, ele diz contar com o que chamou de "sacerdócio", o juramento feito por cada agente.
"Seria muito bom se a gente tivesse recursos para fazer novos investimentos e para fazer a manutenção dos projetos e das necessidades que temos. Isso no momento não é possível. Mas eu conto com a missão das policias, com a vocação deles", afirmou.
Primeira comunidade a receber uma UPP, o Santa Marta teve o salão do quartel decorado com notas musicais e fitas prateadas nas paredes. A mesa de aniversário trazia bexigas coloridas e um bolo com a mensagem escrita com letra cursiva em glacê: "Parabéns UPP Santa Marta - Pelos 8 anos de Pacificação".

Vitrine

Com cerca de quatro mil moradores, o morro Santa Marta, no bairro carioca de Botafogo, sempre foi a principal vitrine das UPPs, programa de policiamento comunitário que visa a restabelecer a presença do Estado em territórios dominados pelo tráfico de drogas.

Roberto Sá e José Mario dos Santos
Image captionSecretário Roberto Sá discursou ao lado do líder comunitário José Mario dos Santos

Até recentemente, os moradores contavam sete anos sem um registro de assassinato no morro. Em março deste ano, no entanto, um homem foi morto em uma troca de tiros com a polícia.
No mês passado, traficantes atacaram uma base da UPP na parte mais baixa do morro, lançando um artefato explosivo de fabricação caseira que destruiu um armário e estilhaçou janelas. Horas antes, uma troca de tiros com a polícia deixara um homem ferido.
Após uma primeira fase de redução expressiva, os índices de violência em áreas com UPPs vêm aumentando. O número de homicídios dolosos nas 38 áreas com unidades subiu de 52 em 2013 - ano com menor número de assassinatos nesses últimos oito anos - para 109 no ano passado.
Apesar de ter mais do que dobrado, o número ainda está abaixo do índice de 2007, ano anterior ao da implantação do programa, quando a soma de homicídios dolosos chegou a 179.
Pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o sociólogo Ignacio Cano diz que as áreas de UPP ainda estão em situação melhor do que antes da entrada do programa - quando se compara os índices atuais aos de 2007, o saldo do projeto ainda é positivo.
Mas os indicadores vêm se deteriorando "de forma dramática" desde o início do ano, e isso faz parte de um cenário desfavorável enfrentado pelo Estado do Rio.
"O momento não é de uma crise das UPPs, e sim de uma crise da segurança pública como um todo", afirma o sociólogo, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da universidade.

Políciais em favela no RioImage copyrightAFP
Image caption'A despeito de um problema ou outro acontecendo em uma UPP, este projeto não vai acabar', diz secretário

'UPP não vai acabar'

Na sala quente e apertada na UPP do Santa Marta, o secretário Roberto Sá procurou dissipar temores sobre o futuro das unidades. Ele assumiu o cargo em outubro, após a renúncia de José Mariano Beltrame em meio à crise financeira do Rio.
"A despeito de um problema ou outro acontecendo em uma UPP, este projeto não vai acabar", afirmou à plateia, formada mais por policiais militares que por moradores.
"A UPP não deve ser encarada como a solução de todas as mazelas, mas nem tudo está perdido. Nossa presença aqui antes seria impensável um tempo atrás", disse o secretário.
A comemoração e a presença da cúpula da segurança pública ali seriam prova disso. Ele lembrou que mesmo o astro Michael Jackson tivera que pagar aos traficantes locais para ser autorizado a filmar um clipe de música no morro, antes da era das UPPs.
Em seguida entraram em cena os policiais da "UPP Band". Vestindo a farda, os integrantes tocavam teclado, guitarra e saxofone. O show começou com a música "A Estrada", da banda Cidade Negra: "Você não sabe o quanto eu caminhei/ para chegar até aqui..."
Do lado de fora, mais mães desbravavam o calor carioca para chegar ao topo da escadaria com suas crianças - a base da UPP fica na parte mais alta do morro.
Elas trouxeram os filhos atraídas pela perspectiva de presentes do Papai Noel e outras promessas do convite - incluindo pipoca, cachorro-quente e sorvete. Quase não havia homens ou jovens moradores.
"É a primeira vez que vim na festa da UPP", contou Vanessa Santos, de 37 anos, enquanto suas duas filhas e sobrinha brincavam de roda na entrada da unidade. "As crianças estão de férias, então trago elas para tudo que é atividade para passarem o tempo."
Para a moradora, o aniversário do programa deve ser comemorado sobretudo pelas iniciativas sociais que vieram na esteira - como o projeto de dança que estava sendo inaugurado no evento com a presença do patrono e coreógrafo Carlinhos de Jesus.

'Oportunidades existem sim'

Dezenas de crianças subiam e desciam as escadas dentro da UPP, brincando aos berros, por vezes esbarrando em policiais armados. Algumas vestiam camisetas de ícones infantis - Barbie, Princesas da Disney, Neymar e outros heróis.

O lutador de MMA Charles Henrique
Image captionO lutador de MMA Charles Henrique "Blackout" e a policial Tatiana Lima conversaram com crianças em festa da UPP Santa Marta

A tenente Tatiana Lima, comandante da UPP, pediu silêncio para apresentar Charles Henrique "Blackout".
O lutador cearense ganhou, em novembro, o título Wocs (Watch Out Combat Show, um campeonato de MMA) na categoria 61 kg. O cinturão do campeonato passava de mãos em mãos. Ou, mais precisamente, pelas cinturas fininhas dos meninos posando para fotos.
"Quem aí quer ser campeão?", perguntava a tenente, explicando que o lutador, como eles, crescera em uma comunidade e conseguira vencer na vida.
"Então vamos ser perseverantes, gente, vamos confiar em Deus, vamos manter o caminho certo", apelava às crianças. "Oportunidades existem sim, só tem que agarrar com muita força quando aparece."
Em nome do Santa Marta, o presidente da Associação dos Moradores, José Mario Hilário dos Santos, recebeu os agradecimentos do secretário de Segurança Pública Roberto Sá na festa. Em conversa com a BBC Brasil, ele afirmou que a favela mudou radicalmente nos últimos oito anos.
"É muito diferente. Antes não estaríamos conversando nesse pedaço aqui. Aqui tinha troca de tiros o tempo todo", lembrou, na escadaria do lado de fora da UPP.
Zé Mario, como é conhecido, disse que as lideranças vêm fazendo a sua parte para atrair projetos e gerar renda e emprego para os moradores.
"Agora o governo tem que fazer a sua parte. Se o governador vai para a TV falar que não tem condição de pagar a Polícia Militar, aí ele está deixando o outro lado trabalhar. Aí as consequências são desagradáveis", lamentou.
O assassinato ocorrido em março causou temor. "Foi onde a comunidade começou a achar que o sonho acabou. Graças a Deus o trabalho foi retomado, e continuamos lutando pela paz."

José Mario Hilário dos Santos
Image caption'Antes não estaríamos conversando nesse pedaço aqui. Aqui tinha troca de tiros o tempo todo', diz líder comunitário

Zé Mario deixou a festa mais cedo para mostrar o morro para uma visita de outra comunidade: Claudio "Russinho", presidente da Associação de Moradores do Morro do Turano, na Tijuca, zona norte do Rio.
Eles pararam para contemplar a vista da "Laje do Michael Jackson", onde o cantor gravou o clipe da música "They don't care about us" ("Eles não ligam para nós"). Do mirante é possível ver o Cristo Redentor, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Morro Dois Irmãos e a favela esparramada abaixo.
"No Turano não temos muito a comemorar. Lá a UPP não entrou com nada", disse Russinho. Projetos sociais não chegaram à comunidade, tiroteios são comuns e a relação com os policiais é tensa, relatou.

'Ilha isolada na Suécia'

O secretário Roberto Sá afirma que os problemas refletem a realidade do Rio de Janeiro e que não se pode olhar para as UPPs como estivessem fora desse contexto, e fossem "uma ilha isolada na Suécia".
"O crime perde muito dinheiro quando instalamos uma UPP. E ele vai aterrorizar o morador para que hostilize os policiais, para que a gente sofra críticas da mídia e de especialistas e que o programa acabe. A crítica construtiva ajuda, mas depreciar demais é um favor para os criminosos."
O estande de guias de turismo na entrada do Santa Marta é um símbolo das oportunidades econômicas que se abriram com a chegada da UPP.
A atividade hoje sustenta um coletivo de guias independentes que se revezam para atender visitantes, a maioria estrangeiros. Mas o movimento no mês de dezembro está atípico.
"Está muito parado, não sei o que está acontecendo. Espero que até o Carnaval melhore", diz a guia Salete Martins.
"Tem gente que diz que a UPP está por um fio, porque o Estado está falido. Se acabar, acho que vai ser inviável trabalhar com turismo nas favelas. Se não fosse a pacificação, não teríamos turismo aqui", afirma ela, entregando um livreto com as atrações da comunidade - que promete "um novo ponto de vista" do Rio de Janeiro.

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