domingo, 1 de fevereiro de 2015

Traduções... Eduardo L. Resende, Muito obrigada por compartilhar!!


(Imagem: Pinterest, do álbum OMG-pink kitty (sarah) )

Renovar. Inovar. Revirar o quarto, a casa, o mundo, a vida. Ver o avesso de tudo.

Foi com essa disposição que Margot começou o dia. O passo seguinte foi inverter os passos: calçou as sandálias de borracha em pés trocados, apesar dos apelos recheados de pelamordedeus da mãe, que saiu à procura do telefone do psicólogo. O pai limitou-se a franzir a testa.

Respondendo de pronto à segunda chamada daquele impulso revolucionário, a adolescente escancarou as portas do guarda-roupa e fez desabar um everest de roupas, culminando a avalanche com um poncho de flanela.

- Mãe, como é que usa isto?

Cabeça enfiada dentro da bolsa, a mãe ainda procurava o cartão do psicólogo. Optou por uma trégua e pela negociação.

- Veste por cima, o poncho fica sobre os ombros... Como uma capa.

De frente para o espelho, Margot teve a impressão de que usava um babador. A peça era pequena, havia sido de seu pai quando criança. Olhou bem, virou-se para um e outro lado, até que decidiu: a revolução não podia parar ali, num poncho de flanela bonito, diferente, mas pequeno.

O movimento seguinte foi o computador. Absurdamente monótono do outro lado da porta do quarto, o mundo da moda não perdia por esperar: uma nova Margot renasceria daquela montanha de peças de roupa medievais. O segredo estava em trazer a novidade pela tela do notebook.

Caçada virtual sem rumo, vacilante. Idas e vindas, interrogações, trevas que a ignorância de Margot justificava como “complicação da mesmice”. Até que a vida coloriu-se e passou a fazer sentido, não num poncho de flanela, mas num exuberante xale vestido pela modelo. O site estava em inglês, mas revolucionária determinada, Margot deu um sorrisinho de deboche e apelou para o programinha de tradução.

Tudo posto em língua de gente, o texto começava com o depoimento de alguém que havia adquirido o “shawl preto, na abundância da hora para nosso desengate”. O comprador agradecia a eficiência do fornecedor ao oferecer “um shawl de much apenas bonito”, revelando em seguida que “meus filha e eu somos excitados e teremos uma estadia grande fazer exame das voltas que desgastam”.

Não importava aquela incompreensível baboseira, mas apenas que ela, Margot Shawl (passaria a adotar aquela palavra como sobrenome, em lugar do Silveira totalmente sem graça), sairia em busca do tal “shawl de much”.

Sairia, não fosse o notebook de Margot ter passado para o lado inimigo – traição insuportável. “Emparelhe acima deste shawl da franja com a roupa menos-cara para resultados stunning. Um shawl pode completamente mudar o olhar de um par das calças de brim e substituirá um revestimento a qualquer momento...”

Mudar o olhar de um par de calças? Tudo o que a revolucionária Margot tinha em mente era a inveja das amigas e o olhar dos garotos... Na incerteza, o melhor era recuar.

O canhão inimigo explodia do outro lado da porta do quarto, que estava a ponto de vir abaixo pelos murros do pai. Na retirada, Margot transpôs de cabeça erguida a montanha de roupitas adoráveis.

Depois do almoço, antes de sair para a escola, radicalizou calçando o par de tênis em pés trocados.

(Repost - Reeditado)

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