sábado, 11 de outubro de 2014

'Tive um sonho terrível com o Talebã', disse Malala em blog da BBC em 2009


Reuters
A ativista paquistanesa Malala Yousafzai foi um dos dois ganhadores o Nobel da Paz deste ano, por seu trabalho pela educação no Paquistão, tornando-se a pessoa mais jovem a ser laureada com o prêmio.
Em 2009, ela escreveu um diário para a BBC em língua urdu (idioma do Paquistão) em que retratava a vida sob o regime Talebã no Vale de Swat, no noroeste do país. Três anos depois, militantes tentaram assassiná-la com um tiro na cabeça.
Ela sobreviveu e se tornou uma das principais vozes pelo direito à educação no mundo.
A seguir, alguns dos trechos mais tocantes de seu diário.

'Tive um sonho terrível'

Sábado, 3 de janeiro
Tive um sonho terrível ontem com helicópteros militares e o Talebã. Venho tendo estes sonhos desde o início da operação militar em Swat. Minha mãe fez café da manhã para mim e me levou à escola. Estava com medo de ir à escola, porque o Talebã havia dado uma ordem banindo as meninas da escola...
BBC
O Talibã controlava o Vale de Swat, onde Malala morava enquanto escrevia o diário
No caminho da escola para casa, ouvi um homem dizendo "vou matar você". Apertei o passo e, depois de algum tempo, olhei para trás para ver se ele ainda estava atrás de mim. Mas, para meu total alívio, ele estava falando ao celular e devia estar ameaçando outra pessoa pelo telefone.
Quinta-feira, 15 de janeiro
Hoje é... o último dia antes da ordem do Talebã passar a valer, e minha amiga estava discutindo o dever de casa como se nada além do ordinário estivesse acontecido.
Hoje, também li o diário escrito para a BBC, que foi publicado em um jornal. Minha mãe gostou do meu pseudônimo "Gul Makai" e disse ao meu pai: "Por que não mudar o nome dela para Gul Makai?". Também gostei do nome, porque o meu nome real significa "acometida pelo pesar".

'Alguns do meus amigos foram embora'

Domingo, 18 de janeiro
EPA
Foto tirada pouco antes de Malala levar um tiro na cabeça, quando tinha 14 anos
Meu pai disse que nosso governo protegeria nossas escolas. O primeiro-ministro também falou deste assunto. Fiquei feliz inicialmente, mas agora sei que isso não resolverá nosso problema. Aqui no Swat, nós ouvimos todos os dias que muitos soldados foram mortos e que muitas pessoas foram sequestradas em tal e tal lugar. Mas não há nem sinal da Polícia.
Quinta-feira, 22 de janeiro
Alguns dos meus amigos deixaram o Swat porque a situação aqui é muito perigosa. Não saio de casa. De noite, Maulana Shah Sauran (o membro do Talebã que anunciou o banimento de meninas nas escolas) voltou a alertar para que mulheres não saiam de casa. Ele também disse que o Talebã não atacaria as escolas que as forças de segurança usam como bases.

'Dúzias de escolas foram destruídas'

AFP
O Talibã bombardeou escolas no noroeste do Paquistão
Domingo, 25 de janeiro
Parece que o Exército só pensa em proteger as escolas quando dúzias são destruídas e centenas mais são fechadas. Se eles tivessem conduzido suas operações adequadamente, não estaríamos nesta situação.
Quarta-feira, 28 de janeiro
Estamos ficando com o pai de uma amiga em Islamabad. É minha primeira visita à cidade. Ela é bonita, com belos bangalôs e estradas largas. Mas, em comparação com minha cidade no Swat, falta beleza natural...
Getty
Na época, protestos condenavam a destruição de escolas

'Fico triste ao olhar meu uniforme'

Domingo, 8 de fevereiro

Fico triste ao olhar para o meu uniforme, minha mochila e minha caixa de apetrechos para as aulas de geometria. As escolas para meninos reabrirão amanhã. Mas o Talebã baniu as meninas das escolas.
Quinta-feira, 19 de fevereiro
Disse aos meus irmãos que nós não falaremos mais da guerra, só de paz daqui em diante. Nós recebemos a informação da diretora da nossa escola de que nossas provas serão realizadas na primeira semana de março. Passei a estudar mais.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141010_diario_malala_rb

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