O chamado a salvar o mundo



Hoje vou propor duas teses. Mas, antes, diria aos inteligentinhos que, como vamos falar de coisa séria (os jovens, uma gente que prezo muito), eles, os inteligentinhos, devem ir pegar sua merenda balanceada e brincar no parque, e deixar a gente grande conversar.

Muitos leitores me perguntam o que seria um inteligentinho. Explico: quando você diz "não existe almoço de graça", o inteligentinho diz que você disse que "os mais pobres não têm direito à felicidade". Quando você diz que "as mulheres não suportam homens fracos", a inteligentinha diz que você disse que "as mulheres devem ficar em casa lavando louça". Em suma: mentem.

A primeira tese é que temos estragado a cabeça dos mais jovens há cerca de quarenta anos. Inventamos essa coisa de que eles "devem mudar o mundo"(uma invenção da publicidade dos anos 60 pra vender jeans, com a nobre e sincera intenção de gerar empregos), e isso atrapalha bastante a vida deles.

A propósito, não estou sendo irônico quando digo que a publicidade é sincera. Aliás, no mundo dos idiotas do bem, a publicidade é um dos últimos redutos de sinceridade.

"Salvar o mundo" obriga aos mais jovens terem opiniões sobre tudo, principalmente sobre coisas complexas como economia (quando só conhecem a mesada ou a grana do estágio e não são responsáveis por nada de fato), relacionamento homem-mulher (quando acabaram de entrar no "mercado dos sofrimentos afetivos" e mal sabem o que é amar no mundo real), geopolítica (quando muito, se tem dinheiro, fazem intercâmbio na Austrália ou viajam via ONGs superlegais para fazer trabalho social em Madagascar por três meses antes da pós em Nova York).

E, o mais importante: esses jovens cheios de "causas pra mudar o mundo" fogem da obrigação de arrumar o quarto se escondendo atrás de discursos sobre o mundo, construídos por professores de história ou filosofia cuja única glória é pregar para adolescentes entediados com um mundo que é sempre cinza e confuso. Além, claro, do tédio com o casamento sem saída dos seus pais.

Muitas vezes, esse jovens chamados à jihad light, elegem causas de butique como "libertar os animais do jugo dos carnívoros", seguindo o filósofo Peter Singer e seu conceito de "especismo", cunhado no livro "Animal Liberation", feito sob medida pra estudantes de classe média alta nova-iorquinos e paulistanos. Gente muito "democrática" que gostaria de colocar fora do lei o menu dos outros. A busca da pureza ainda vai nos matar a todos.

Mas, chama a atenção a forma muitas vezes violenta, ainda que num primeiro momento marcada apenas pela violência verbal, das manifestações desses jovens chamados às formas de jihad light.

Sabe-se que muitos dos jovens ocidentais que têm aderido a grupos fundamentalistas são recrutados pelas redes sociais e seu chamado a "mudar o mundo". O tédio assola essa moçada que ganha mesada dos pais ou do Estado.

Eis minha segunda tese de hoje: é um erro achar que haja uma distância gigantesca entre os aderentes da jihad light e da hard (sendo esta a que os leva a violência explícita), do ponto de vista dos afetos confusos deste tédio jovem.

No caso específico dos meninos, um detalhe deve nos chamar atenção na adesão crescente ao chamado "para mudar o mundo" dos grupos religiosos fundamentalistas do Oriente Médio.

Muitos meninos, equivocadamente, penso eu, sentem que não há espaço pra eles num mundo civilizado em que a masculinidade é vista como sintoma social a ser suprimido via a transformação de todo e qualquer comportamento masculino em "machismo".

Muitos meninos temem acabar a vida cuidando de bebês e tendo que parecer meninas para poderem existir.

Acho isso um equívoco, mas negar a existência do fato (que os meninos estão se sentindo acuados por um mundo que os quer feminilizar a todo custo) é outro equívoco.

Os jovens aderentes aos grupos fundamentalistas violentos são movidos pelos mesmos sentimentos dos nossos jovens que querem salvar o mundo: a busca da pureza na vida. É hora de pararmos de mandar esses meninos e meninas salvarem o mundo. 

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2014/09/1515902-o-chamado-a-salvar-o-mundo.shtml





luiz felipe pondé
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, 'Contra um mundo melhor' (Ed. LeYa). Escreve às segundas.

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