terça-feira, 7 de abril de 2026

CANSADA? AH!, LOGO VOCÊ?... (Crônica)




             Havia meses que não nos encontrávamos... Naquele sábado à tarde tínhamos combinado de tomarmos um lanche na padaria, e conversarmos um pouco, colocar os assuntos "em dia"...

             Celione, pela primeira vez chegou pontualmente. Não era comum. Geralmente se justificava colocando a culpa nas exigências do marido, já que para cuidar dos filhos tinha as babás.

              Havia algo estranho em sua fisionomia; aparentemente estava bem diferente: cheia de olheiras, abatida e visivelmente com autoestima muito baixa, apresentando literalmente sinais de esgotamento físico e mental. Após nos cumprimentarmos, nosso papo nem chegou a fluir como antes. Percebi que ela estava ansiosa para desabafar. Ali, em silêncio, deixei que falasse enquanto me permiti ser a "escuta confiável" que minha amiga parecia não encontrar em outra pessoa.

              "Alfredo sempre exigiu bastante de mim, desde que nos casamos. Nosso namoro durou um período muito curto, apenas seis meses. Apesar de eu e minha família o conhecermos, por se tratar de família tradicional residente há anos na cidade, hoje sei que só isso não é suficiente para sabermos quem de fato é uma pessoa. No início do segundo semestre de 2005 oficializamos nosso casamento. Afinal ele tinha pressa (em legitimar uma segunda união) devido os investimentos e bens que possuía. Estava correndo o risco de perder uma parte significativa para a ex-companheira. A cidade inteira sabia que ela havia "fraudado" vários documentos (quando ainda estava com ele) e conseguido testemunhas falsas para comprovar que realmente tinha mais direitos de que aqueles que ele, amigavelmente,  já havia lhe concedido".

               "Querida, estou muito cansada de não me cansar"! Levantei a cabeça, abri mais os olhos e olhei-a fixamente.

              Ela percebeu minha reação e continuou: "É isso mesmo que você ouviu"! Simplesmente estou esgotada física e mentalmente"... Confesso que nunca ouvi antes minha amiga falar tão sério; seu tom de voz havia mudado completamente. Senti em seu olhar algo a mais: um misto de confusão e pedido de socorro.

             Nos conhecemos desde a infância; sempre fomos grandes amigas. É fato que depois que crescemos, principalmente após a adolescência, vamos assumindo responsabilidades, entre essas algumas que exigem cada vez mais de nós: estudos, trabalho, pais, casamento, filhos, tudo isso vai nos afastando não só de nossas amizades, mas de nós mesmas, porque vai nos sobrecarregando de tal forma que, se não pararmos para nos observar, chegaremos ao extremo de nossas forças e, talvez estejamos doentes, pelo fato de termos que cuidar durante anos e anos a fio, de tantas pessoas a nossa volta, vamos nos  procrastinando, deixando para depois um depois que nunca saberemos quando irá chegar para ser a nossa vez.

              Celione é mãe de três filhos, ainda menores de idade. Ela levou anos tentando engravidar. Era um sonho quase "desesperado" do casal. Alfredo gastou rios de dinheiro com tratamentos modernos nas melhores Clínicas do Estado e de outra Região do país. Quando ela engravidou, as famílias fizeram uma grande festa para celebrar entre familiares e amigos. E, após o nascimento dos trigêmeos, a festa durou três dias... Alfredo tão empolgado, narcisista, cheio de si, chegou a cogitar que seus filhos recém nascidos mereciam ganhar um dia de "ponto facultativo" na cidade, para que mais  e mais pessoas viessem visitá-los.

             Ele possui grandes investimentos em dois Estados vizinhos, por esse motivo passa a maior parte do tempo viajando. A cada 15 dias Alfredo visita a família, permanecendo juntos apenas o final de semana, ainda assim sai para visitar os pais e alguns amigos mais próximos. A esposa e as crianças sentem bastante sua ausência, principalmente as crianças que, apesar de já estarem em idade escolar, sempre perguntam pelo pai e pedem para telefonar, quase sempre pedindo (às vezes chorando) para que ele volte para casa definitivamente. Essas cenas partem o coração da mãe, principalmente porque já ocorreu de ele não atender a ligação, ou atender demonstrando irritação, impaciência, inclusive pressa, causando uma má impressão nos filhos. Atualmente ela tem conhecimento de que, por mais que se desdobre em atenção, carinho e cuidados, nunca irá preencher a presença paterna. Alfredo sempre foi um homem "linha dura", seco, por vezes frio e sem diálogo com a família. Celione, quando tenta conversar, ele, na grande maioria das vezes reage com grosserias, sem se importar de deixá-la triste e falando sozinha.

             Minha amiga tem tudo (materialmente falando) para não precisar trabalhar fora, ainda assim trabalha. De segunda a quinta-feira dá plantão no maior Hospital da Cidade, em turnos de revezamento. O fato de ser mãe de três meninos com a mesma idade, é o suficiente para acumular não apenas tarefas em casa (algumas pertinentes apenas a ela), mas deixar a desejar na supervisão dos trabalhos de suas "secretárias" no trato com a casa e as crianças. 

             Alfredo jamais impediu que a esposa trabalhasse. Por se tratar de um homem que detém sozinho o controle das finanças, Celione optou por trabalhar, para não ter que depender dele (financeiramente) no momento de comprar roupas, calçados ou ir no salão de beleza.

             A parte mais difícil não está apenas relacionada aos filhos e à casa, mas às importunações do marido com suas exigências, por vezes descabidas. Ele sequer entende quando a esposa está cansada, esgotada, e tudo que deseja é descansar, relaxar e dormir um pouco mais. É tanta incompreensão que Alfredo já teve a cara de pau, mais de uma vez, de cogitar arranjar outra mulher, que mesmo trabalhando fora, estivesse mais "disponível" quando ele precisar.

              No final de nosso reencontro, minha amiga falou com a voz embargada: "Eu não sou mais aquela, sequer sou o que ainda tento parecer". Naquele instante notei algumas lágrimas rolando em seu rosto, e isso me devastou por dentro. A vontade de ajudá-la é mais forte que qualquer outra coisa nesse momento. No dia seguinte refleti bastante sobre como os esposos/companheiros, as famílias, a sociedade querem uma mulher sorridente, gentil, disposta, simpática e atenciosa o tempo todo, esquecendo-se de que somos tão somente humanas.

             Nos despedimos com um grande e demorado abraço, e minhas palavras de encorajamento na certeza de que ela pode contar comigo sempre que precisar. Paguei a despesa e retornei para casa pensando em inúmeras outras: 

Celiones, Lauras, Marias, Anas, Judites, Valérias, Antonias, Germanas, Marcelas etc, etc, etc..., que carregam sobre os ombros o peso das jornadas duplas  ou triplas de trabalho mais o peso enorme da incompreensão e das grosserias de seus companheiros. Elas seguem vida afora sentindo na pele a mesma sensação de estarem "cansadas de não se cansar".

Aparecida Ramos

Imagem gratuita: Pixabay

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