terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os caminhos da cocaína que sai do Brasil para a Europa


Polícia Rodoviária Federal apreende em carretas centenas de quilos de cocaína e de maconha, em Alto Paraíso (PR)

  • Polícia Rodoviária Federal apreende em carretas centenas de quilos de cocaína e de maconha, em Alto Paraíso (PR)
Facções criminosas brasileiras lutam pelo controle de um mercado crescente, que movimenta bilhões de reais, tem participação do crime organizado de vários países e conta com rotas complexas por terra, ar e mar.
A onda de violência em penitenciárias, que deixou mais de cem mortos em motins no Norte e Nordeste do país no início deste ano, chamou a atenção para a força do narcotráfico no Brasil e para a guerra travada pelas facções pelo controle de um mercado crescente, estimado em bilhões de reais.
Nos últimos anos, o Brasil se tornou o principal país de trânsito para o escoamento da cocaína sul-americana para a Europa – a droga que vai para os EUA, outro grande mercado, passa sobretudo pela América Central.
Segundo levantamento de 2016 da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, a cocaína movimenta, por ano, R$ 4,6 bilhões no Brasil. "Há dez anos, o comércio entre a América do Sul e a Europa vem crescendo, e os traficantes usam essa oportunidade para esconder a cocaína entre as mercadorias", afirma Laurent Laniel, analista do setor de mercados, crimes e redução de fornecimento do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA).
Até 2008, a Venezuela era o principal país de trânsito da cocaína rumo à Europa, com 51% do volume transportado, como mostrou o relatório anual do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), publicado em 2010. Na época, o Brasil era responsável por apenas 10% do tráfico marítimo. Com o declínio da produção na Colômbia, maior produtora mundial, e o aumento na Bolívia e no Peru, o Brasil foi ganhando destaque nesse mercado ilegal.
Em 2012, a UNODC já indicava uma possível mudança nas rotas do tráfico, incluindo a África como ponto de trânsito. "Nesta época, a mudança indicava um controle maior na rota do Caribe, o que dificultou o transporte por lá. A África Ocidental é muito próxima da América do Sul, e a situação política em vários países da região facilitava o suborno de autoridades para que a mercadoria desembarcasse livremente", diz Judith Vorrath, pesquisadora do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP).
Em 2015, a UNODC apontou o Brasil como a principal porta de saída na rota de escoamento da cocaína sul-americana em direção à Europa e, em 2016, numa revisão dos dados, indicou que o Brasil já havia assumido essa posição em 2009. Laniel afirma que, além da proximidade do Brasil com regiões produtoras, a corrupção em portos e aeroportos nos dois lados do Atlântico contribui para impulsionar o tráfico de cocaína em direção à Europa.

Crime organizado internacional

Neste mercado, que movimenta pelo menos 5,7 bilhões de euros por ano na Europa, segundo uma estimativa do EMCDDA, traficantes brasileiros operam em conjunto com organizações criminosas internacionais, como a máfia italiana.
Em 2014, uma operação deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF) revelou a ligação de traficantes com a máfia Ndrangheta, da Calábria, que contava, inclusive, com intermediadores no Brasil. O esquema usava o Porto de Santos para o escoamento da droga.
"A máfia italiana tem apenas players num mercado muito competitivo. Diferentes atores participam de uma ou duas fases na cadeia do tráfico. O mercado de drogas é um mercado aberto, onde é impossível estabelecer monopólios ou mesmo oligopólios", afirma Francesco Calderoni, pesquisador do Centro de Pesquisa sobre Crimes Transnacionais da Universidade Católica de Milão.
Além da Ndrangheta, há indícios de envolvimento da máfia Camorra, de Nápoles, no tráfico. O grupo é ativo especialmente na cidade portuária alemã de Hamburgo. "A máfia italiana tem capacidade de trazer grandes quantidades de drogas e...
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https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2017/01/24/os-caminhos-da-cocaina-que-sai-do-brasil-para-a-europa.htm

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