sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ONU vê 'misoginia' e aponta chacina em Campinas como crime de gênero ONU Mulheres manifestou repúdio e pediu ações de políticas públicas. No réveillon, Sidnei Ramis de Araújo matou ex-mulher, filho e mais dez

Isamara e o filho João Victor foram assassinados pelo ex-esposo dela, e pai do menino, em Campinas (Foto: Reprodução / Facebook)Isamara e o filho João Victor foram assassinados pelo ex-marido dela (Foto: Reprodução / Facebook)












A Entidade das Naçoes Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) se manifestou em repúdio à chacina que matou 12 pessoas da mesma família - entre elas nove mulheres - durante uma festa de réveillon em Campinas (SP). De acordo com a nota oficial, o crime não é um caso isolado ou vingança pessoal, mas sim uma violencia de gênero fruto do "machismo e da misoginia".  O órgão também reiterou compromisso em defesa da Lei Maria da Penha.

A ONU Mulheres ainda pediu para que as autoridades incorporem a perspectiva de gênero no processo de investigação policial, de acordo com as diretrizes nacionais sobre feminicídio. O texto, assinado pela representante da entidade no Brasil, Nadine Gasman, faz um apelo de investimentos em políticas públicas para mulheres.

"É inadmissível que os crimes de ódios às mulheres sejam disseminados. (...) Não é possível considerar as violências de gênero, como a sofrida pelas mulheres em Campinas, como casos isolados ou frutos de uma vingança pessoal. Ao contrário, tratam-se de casos de machismo e misoginia, que expressam a cultura de violência a qual todas as mulheres estão submetidas diariamente no Brasil", diz o texto da nota, publicada na terça-feira (10).

Entre a noite de 31 de dezembro e a madrugada de 1º de janeiro, Sidnei Ramis de Araújo pulou o muro de uma casa na Vila Proost de Souza, assassinou a ex-mulher, Isamara Filier, de 41 anos, o filho de 8, outras dez pessoas e se matou na sequência. Um dos sobreviventes da chacina ainda está internado no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti sem previsão de alta. Confira o que se sabe e o que ainda falta saber sobre o crime.
Ato foi encerrado nas escadarias da Prefeitura de Campinas (Foto: Roberta Steganha / G1)Ato foi encerrado nas escadarias da Prefeitura de Campinas (Foto: Roberta Steganha / G1)
Protesto
No dia 5 de janeiro, um ato pelo fim da violência contra as mulheres fechou ruas do Centro de Campinas (SP). Os organizadores estimaram 1 mil participantes, enquanto a Polícia Militar indicou ao menos 250 pessoas. O protesto foi organizado por movimentos sociais. Durante o ato, as pessoas seguraram faixas e cartazes com frases em repúdio ao machismo.

Depoimento
Na segunda-feira (9), outro sobrevivente teve alta do hospital. Admilson de Moura, de 45 anos, estava internado no Hospital Celso Pierro desde a data do crime. A mulher dele está entre as vítimas, enquanto o filho escapou por pouco do atirador, segundo ele. O homem gravou um depoimento com exclusividade ao Fantástico, da TV Globo, e contou detalhes sobre a tragédia. Veja o vídeo.
Moura foi baleado por Araújo quando estava na garagem da residência. "Ele já chegou dando tiro em todo mundo, não dando chance pra defesa de ninguém. Depois entrou pra dentro da casa dando tiro nas mulheres [...] Eu apaguei por alguns segundos e acordei ouvindo barulho de tiro, muito tiro... Cheiro de pólvora para todo lado", explicou.
Investigações
A perícia concluiu a avaliação sobre a pistola 9 milímetros usada na chacina. O número de série da arma chegou a ser identificado, mas não há registro dela nos arquivos policiais, o que dificulta a localização do responsável pela venda para Sidnei Araújo.

O Instituto de Criminalística ainda aguarda a chegada de áudios e escritos deixados pelo atirador para tentar descobrir mais informações sobre os planos dele.

Os laudos da perícia realizada na casa onde aconteceu o crime ainda não ficaram prontos. No entanto, o diretor do IC, Edvaldo Messias Barros, os trabalhos já apontaram que o atirador deu "mais de 30 tiros".

Áudios, carta e diário
O atirador da chacina gravou uma série de áudios onde conta sobre a suposta compra da arma usada nos assassinatos e pede perdão "pelos transtornos". Entre as gravações obtidas pela EPTV, ele menciona que ocultou a numeração da pistola para tentar proteger a suposta vendedora e espera que ela não saiba sobre o uso. "Eu raspei toda essa numeração para que ninguém consiga prejudicar a mulher, coitada. Espero que ela nem fique sabendo disso, senão ela vai pensar que vai morrer, vai para o inferno e vai deixar os filhos aí."

Antes dos crimes, o atirador também escreveu uma carta para os amigos e a namorada, além de mensagens para o filho. No documento de oito páginas, ele explica que estava se vingando da ex-esposa porque ela dificultava seu relacionamento com o filho, escreve frases de ódio contra as mulheres, se diz injustiçado e ainda fala dos planos de assassinar a família.
Além da carta e dos áudios, Araújo também deixou um diário, onde há relatos da convivência com a ex-mulher e mandou mensagens ao filho. Nas 44 páginas do caderno, escrito desde 2012, o atirador conta a briga judicial com Isamara e demonstra que premeditava o crime.

As mortes
Araújo invadiu a casa na Vila Prost de Souza com a pistola, dois carregadores, um canivete e dez explosivos. Ele atingiu 15 pessoas, sendo que 11 morreram no local e uma das vítimas socorridas não resistiu. O filho dele foi o último a ser assassinado antes do suicídio.
O atirador, de 46 anos, trabalhava como técnico no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que reúne alguns dos principais laboratórios de estudos e inovação do governo federal. Por meio de nota, a instituição lamentou o ocorrido. Veja a lista de vítimas.
G1.com

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