O que muda com os protestos de domingo? - Cinco análises

  • Vinicius Costa/AFP
    Cerca de 2 milhões de pessoas estiveram nas ruas de várias cidades brasileiras
    Cerca de 2 milhões de pessoas estiveram nas ruas de várias cidades brasileiras
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas protestar no domingo (15), com faixas pedindo combate à corrupção e muitos pregando a saída da presidente Dilma Rousseff do poder.
Em São Paulo, palco da maior manifestação, a PM calculou ter havido 1 milhão de pessoas na avenida Paulista; o Datafolha estimou os participantes em 210 mil.
Estimadas 40 mil pessoas protestaram em Brasília, e 15 mil no Rio Janeiro. Houve protestos também em diversas outras capitais, como Recife, Salvador, Fortaleza, Belém, Vitória, Curitiba e Porto Alegre.
À noite, os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) disseram, em entrevista coletiva em Brasília, que o governo tem disposição em "ouvir as vozes das ruas e está sempre aberto ao diálogo".


"Não há democracia sem tolerância; faz parte do ser democrático o respeito a quem pensa diferente e a busca de convergências", disse Cardozo, afirmando que o governo anunciará um pacote de medidas anticorrupção nos próximos dias e voltando a pedir um debate em torno de uma reforma política.

No calor das manifestações, a BBC Brasil pediu a cinco analistas de diferentes espectros políticos, universidades e consultorias uma avaliação inicial dos protestos deste domingo e do clima político do país:

Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco

O cientista político Antonio Lavareda acredita que a presidente Dilma Rousseff tem pouco espaço de manobra para reagir aos protestos de hoje e terá que dar mais espaço para o PMDB no governo para garantir a governabilidade e evitar a paralisia da sua gestão.
"Os protestos surpreenderam e devem significar uma queda ainda maior da popularidade da presidente. Quando o governo está fraco, o preço da composição política aumenta", analisa.
Para Lavareda, a principal motivação do descontentamento da população - e das consequentes manifestações - não está nos cartazes: é a economia. Na sua opinião, porém, o ajuste fiscal, mesmo que impopular, precisa ser feito e deixa a presidente com pouca flexibilidade de atuação nesta área.

Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP

Para Ortellado, os protestos deste domingo surpreenderam pelo tamanho e devem se repetir, colocando o governo em uma situação muito delicada. Ele vê a administração Dilma Rousseff ainda mais enfraquecida porque já não consegue contar com o mesmo apoio da base que a elegeu para contrapor o movimento "antipetista". Esse apoio menor entre os eleitores decorre da adoção de políticas contrárias às defendidas durante a campanha, como as medidas de ajuste fiscal, observa ele.
"Dilma hoje está pior do que Maduro (presidente venezuelano), pois não tem o mesmo apoio que ele nos movimentos sociais e na esquerda em geral".
Ortellado, que esteve na avenida Paulista, em São Paulo para observar os protestos, diz que não identificou consenso em relação à proposta de impeachment da presidente. Sua percepção é de que o movimento não tinha coesão ou uma pauta concreta e exequível.
"É um protesto da velha classe média - não a nova classe C - motivado por algo muito mais amplo do que o sentimento anticorrupção. A pauta é difusa. O que une os manifestantes, claramente, é o antipetismo", afirma.
A expectativa é de que o governo apresente um pacote anticorrupção como resposta aos protestos, mas Ortellado acredita que isso não será suficiente para aplacar a insatisfação. "Dilma adotou as medidas econômicas opostas ao que ela defende, e isso não trouxe apoio desse grupo", notou.

Renato Perissinotto, sociólogo e professor da Universidade Federal do Paraná

Diante das grandes dimensões dos protestos desse domingo, Perissinotto acredita que o governo precisa dar uma resposta rápida às manifestações.
Na sua opinião, o mais provável é que o governo apresente propostas no sentido de dar celeridade aos processos de investigação e punição dos casos de corrupção.
"Não compartilho de uma visão negativa nesse campo. Acredito que o país avançou na transparência dos órgãos públicos e nas instituições de investigação, como o Ministério Público e a Polícia Federal. Mas as pessoas querem ver os corruptos sendo de fato punidos".
Apesar do tamanho dos protestos, ele não vê riscos reais de impeachment da presidente por três motivos: 1) não é uma demanda consensual entre os manifestantes; 2) o governo já se mobiliza para melhorar as relações com o Congresso, por exemplo com a mudança na coordenação política, que deve sair das mãos do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante; 3) o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, tem se manifestado contrariamente.

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências (SP)

"Os desdobramentos (dos protestos) são incertos, mas os protestos são importantes e sintomáticos dos desafios da presidente Dilma Rousseff: implementar medidas eficientes (num cenário de) baixa popularidade, após um acúmulo de erros no primeiro mandato e em meio às investigações sobre a corrupção na Petrobras", diz Cortez.
Para ele, o segundo mandato "corre o risco de ser de um governo fraco, que não consegue impor sua agenda. E o ano deve ser marcado por uma agenda negativa, com as investigações na Petrobras e ajustes (fiscais) que não devem gerar receita no curto prazo".
O mais urgente para o governo, opina Cortez, é melhorar a interlocução com o Congresso – cuja base aliada está rachada – "para não ficar refém do cenário de instabilidade".

Carlos Pereira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas no Rio

Pereira diz que o impeachment pedido por grande parte dos manifestantes deste domingo é algo distante da realidade no momento e que parte do grupo "sem dúvida não aceitou os resultados" eleitorais, mas vê o protestos, sobretudo, "como um sinal de que as pessoas estão cansadas, fartas, e em uma magnitude proporcional aos escândalos de corrupção".


Já estão em curso, segundo ele, alguns fatores que formam uma "tempestade perfeita" contra o governo Dilma: medidas fiscais pouco populares, escândalos de corrupção e protestos em massa.

O governo ainda mantém a maioria no Congresso, mas a atual conjuntura também ameaça isso.
"Passados os protestos, será custoso para os aliados apoiarem o governo; será difícil reconstruir essa confiança."
Pereira opina que, até agora, os movimentos de oposição foram "subestimados". "Muitos esperavam um número menor (de manifestantes) neste domingo, e o governo será forçado a anunciar medidas concretas, de forma cuidadosa, para que as pessoas não acabem mais irritadas" - lembrando quando o ex-presidente Fernando Collor foi à TV pedir que as pessoas usassem verde e amarelo e elas acabaram saindo às ruas, em massa, vestindo preto.
O positivo, diz ele, é que "os protestos ocorreram de forma democrática, sem incidentes - as instituições foram capazes de lidar com tanta polarização de forma democrática".

Protestos de 15 de março pelo país138 fotos

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Manifestantes lotam a avenida Paulista, em São Paulo, em protesto que pede o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Diversas cidades do país recebem neste domingo (15) manifestações contra o governo Leia mais Jorge Araújo/Folhapress

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